O Júri e o Bumerangue - por Francisco Dirceu Barros (com comentários de Marcelo Cunha de Araújo)

11/06/2012 10:07

 

 

O Júri e o Bumerangue - Francisco Dirceu Barros, Promotor de Justiça em Pernambuco

 

A vida é um BUMERANGUE, tudo que você faz de bom ou de mau volta para você, então não seja egoísta, faça coisas boas e colha felicidade.
 


“Não é estranho que a palavra bumerangue tenha sido dicionarizada há tantos anos e que as pessoas não saibam, geralmente, que essa palavra significa uma arma que volta atrás e fere a mão que a arremessou?”(Napoleon Hill)



Esta lei não se limita a fazer voltar contra nós as ações injustas que cometemos uns para com os outros; pode mais longe, muito mais longe, e nos traz os resultados de cada pensamento que formulamos; portanto, tenha muito cuidado com as coisas que você deseja para os outros, pois o universo pode devolver para você. Há um provérbio grego que afirma: “Qualquer espécie de palavra que você disser, a mesma você ouvirá.”



Estava iniciando a carreira de Promotor de Justiça, no interior do país, e acreditava no soberano Tribunal do Júri. Já tinha feito alguns Júris com relativo sucesso.

 

Certa vez, eu ia fazer um Júri, e momentos antes, recebi no meu gabinete uma senhora muito humilde, com vestidos rasgados e empoeirados. Ela me disse algo que eu fiquei paralisado:

 

“Dr. Promotor, o senhor vai fazer daqui a pouco o julgamento do assassino do meu filho, eu não tenho nada para lhe dar, mas vou rezar para que o senhor faça justiça, pois eu só confio no senhor aqui na Terra e Deus no céu”.

 

Eu, ingenuamente, respondi: “Minha senhora, não se preocupe, eu estou representando a justiça, a senhora não precisa pagar nada, e pode ter certeza absoluta que o assassino do seu filho será punido”.

 

O assassino era de uma família tradicional, com prefeito e deputado federal como tios.

 

Parece que a dignidade daquela senhora me iluminou. Começamos o júri 9h da manhã de uma sexta-feira, terminado 6h20min do sábado.

 

Acho que foi o melhor júri que eu fiz em minha carreira. No final, olhava o auditório lotado com a elite da cidade torcendo pelo assassino e apenas uma senhora, no último banco da sala me inspirando. Resultado: mesmo sem a mínima justificativa, o assassino foi absolvido por 7 a 0 (sete a zero).

 

Na leitura do veredicto do Juiz, a platéia vibrou, mas eu observei lá no fundo da platéia uma lágrima rolar, eu também fui até o gabinete e chorei, mandei chamar a senhora, mãe da vítima, e pedi desculpas, pois achava que não tinha desenvolvido minha função de forma eficiente.

 

Ela disse: “Dr. O senhor fez demais, aqui, rico nunca foi condenado”.

 

Eu apenas disse: “Agora eu sei, mas vou recorrer da sentença e o assassino será julgado novamente”.

 

Ao sair do fórum encontrei o sorridente corpo de jurados. Ao desabafar, disse:“Vocês acabam de realizar uma grande injustiça”.

 

Uma jurada, muito religiosa que só andava de branco, respondeu: “O senhor mesmo disse que nossa vontade é soberana, portanto, nossa decisão deve ser respeitada”.

 

Respirei fundo e sem argumentos fui embora, era a primeira vez que eu atestava uma injustiça ser concretizada.

 

Passei longas noites sem dormir e afinal me convenci que tinha feito minha parte, tinha recorrido da sentença e deveria esperar o resultado do Tribunal de Justiça.

 

A natureza é perfeita e a lei do retorno é absoluta, três meses após o lamentável fato narrado, alguém batia fervorosamente no meu gabinete e eu reconheci de plano, era a senhora muito religiosa que só usava branco. Aos prantos ela relatou:

 

“Dr. Promotor, me ajude, acabaram de matar meu filho”.

 

Por ironia do destino a mesma jurada que absolveu um cruel assassino e pedia para ser respeitada em sua decisão, agora pedia justiça.

 

Eu poderia ter dito: “tá lembrada de uma senhora muito humilde, com vestidos rasgados e empoeirados que passou toda a noite esperando ser realizada justiça e vocês absolveram o assassino de seu filho?”

 

Mas preferi respeitar a sua dor e apenas disse: “vou fazer o possível para realizar a justiça, mas a senhora já sabe, no final quem decide é a sociedade”.

 

No primeiro caso, tempos depois, o Tribunal de Justiça aceitou meus argumentos e devolveu para novo julgamento e parece que a sociedade aprendeu: o assassino do filho da senhora de vestidos rasgados e empoeirados foi condenado a 19 anos de reclusão.

 

Eu tenho alguns títulos: mestre em Direito, duas especializações em algumas áreas de Direito, concluí três faculdades, mas você sabe qual é o meu maior título?

 

É uma cartinha de uma senhora que tinha os vestidos rasgados e empoeirados, que diz:

 

“Dr. Promotor, Deus te pague, enfim, foi feita Justiça. Meu filho agora dorme em paz, e eu também já posso morrer em paz, eu acredito na justiça, Deus te proteja”.

 

O interessante é que os livros sagrados das mais diversas religiões pregam a Lei da Reciprocidade:

 

Cristianismo: Tudo quanto, pois, quereis que os homens vos façam, assim fazei-o vós também a eles, pois esta é a lei e assim o dizem os profetas (Bíblia, Mateus 7:l2).

 

Budismo: Não atormentes o próximo com o que te aflige (Udanavarga, 5, 18).

 

Confucionismo: Não faças aos outros aquilo que não desejas que te façam (Anacleto 15,23).

 

Hinduísmo: O dever é, em suma, isto: não faças aos outros aquilo que, se a ti for feito, te causará dor (Mahabharata, 5, 1517).

 

Islamismo: Ninguém será um crente enquanto não desejar para seu próximo aquilo que desejaria para si mesmo (Tradições).

 

Taoísmo: Considera o lucro do teu vizinho como se fora o teu próprio, e o prejuízo do teu vizinho como se fora o teu próprio prejuízo (Tai Shang Kan Ying P’ien).

 

Judaísmo: Se algo te fere, não o uses contra o próximo. Isto é todo o Torah; o mais simples comentário (Tamulde).

 

Zoroastrismo: Só terás boa índole quando não fizeres aos outros o que não for bom para ti próprio (Dadistan-i- dinik 94,5).

 

Em resumo, plante o que desejar colher. (Fonte: http://doministeriopublico.blogspot.com.br/)

 

COMENTÁRIO DO MARCELO CUNHA: Basicamente um dos únicos comentários que faço aos "hipergarantistas de plantão" é que não mudem de opinião quando a violência bater às suas portas e não fiquem "indignados" quando MAIS UM caso de corrupção é divulgado pela mídia. Plantamos o que colhemos e a impunidade é fruto de nossas interpretações levianas dos textos normativos de nosso país. Apenas um exemplo da ordem do dia: ninguém fica indignado quando um assassino responde a um processo em liberdade. Agora, só porque o caso caiu na mídia, a assassina Elise Matsunaga (caso Yoki) DEVE responder presa... E que fique bem claro: não é que ela deva ser solta. É que os casos não mídiáticos deveriam, também, aguardar presos - como forma de respeito mínimo à família da vítima.

 

Artigo publicado originalmente no http://doministeriopublico.blogspot.com.br e reproduzido no Blog do Marcelo Cunha.