PROGNOSE PÓSTUMA OBJETIVA (por Roberto Tardelli)

22/06/2012 11:07

 

Vem de Minas Gerais, onde os Excelentíssimos Senhores Doutores Procuradores de Justiça que compõem a banca de concurso entenderam ser imprescindível que alguém postulante ao cargo de Promotor de Justiça Substituto soubesse, ó céus, soubesse, o que é “prognose póstuma objetiva”?

 

Eu confesso: diante da pergunta, se me fosse feita no táxi, metrô, busão, churrasco na laje, bistrô, casamento de concunhada de um amigo meu, enfim, qualquer lugar terreno, não saberia se isso seria um tarô muito crazy, dúvidas para depois da morte, bolão sobre o que ocorrerá ao Corinthians caso perca a Libertadores e tenha que encarar a lanterna do Brasileirão, enfim, duríssimas questões existenciais. Tudo que é póstumo está adiado... Tudo o que é póstumo não tem pressa, afinal, só falta termos prazos na Eternidade. Uma eternidade que preclui, francamente, não faria muito sentido.

 

 

 

 

 

Prognose. Ô palavrinha! No dicionário, prognose é uma conjectura. Não ajuda muito, mas já é alguma coisa. Então, ficaríamos com uma “conjectura pós-morte objetiva”. Não, isso não faz o menor sentido. Aliás, ninguém faz conjectura. A gente dá um palpite.

 

Ôsmar de Olivêira, sua “prognose objetiva para o jogo”... Amor, uma prognose e será póstuma e serei objetiva: você tem uma amante!!!! Piorou. Essa junção de vocábulos não pode fazer sentido e, se fizer, não pode ser importante.
Seria um surto coletivo que alguma coisa torta como “prognose póstuma objetiva” tivesse importância que não fosse nenhuma.

 

O que seria isso, me perguntei, mas me vigiando para não consultar esse oráculo eletrônico, o Google, e não cheguei a conclusão alguma. Em Direito Penal, tudo que é esquisito ou parece esquisito, a gente põe culpa no Zaffaroni, que, afinal, tem a vantagem de ser argentino. Tenho um Guia de Zaffaroni Para Cegos aqui em casa e o consultei e nem ele, campeão das esquisitices penalistas, foi tão esquisito, a ponto de conceber uma “prognose póstuma”, ainda mais, “objetiva”. Liguei para um amigo espírita e perguntei se Allan Kardec tinha algum dia escrito que algo se parecia com a “prognose póstuma objetiva”, mas ele me bateu telefone, brabo, achando que estivesse com alguma gracinha.

 

Entendi como um “não”. Nem Zaffaroni, nem Kardec.

 

Comecei a sentir uma angústia. Vinte e oito anos de minha vida se passaram e eu nunca soube fazer uma “prognose póstuma objetiva” ou, pior de tudo, na ignorância dos estúpidos cuja fila seria puxada por mim, tenha feito muitas vezes isso, em público!!! Será que alguém me viu fazer uma “prognose póstuma objetiva”? Tem testemunha disso? Serei chantageado: “Roberto Tardelli, eu vi você numa prognose objetiva póstuma!! Mandei a respeito uma carta anônima para o GAECO...” Minha vida está por um triz e eu não sabia e precisei dos Procuradores de Justiça de Minas Gerais que me prevenissem por não saber algo tão óbvio, tão básico, tão principiante...

 

Mas, prometo que até o final do dia de hoje saberei o que isso quer dizer, na exótica hipótese de querer dizer alguma coisa. Prometo. E nunca mais, mas nunca mais de never more, serei assim tão gentio, tão ignorante, tão besta quadrada, a ponto de não saber responder, em dez linhas, o que é prognose póstuma objetiva?
Aposto que até minha avó devia saber... Perdão, isso não mais se repetirá.

 

Espero.

 

 

Roberto Tardelli é Promotor de Justiça em São Paulo

 

 

Fonte: www.robertotardelli.com.br